O papel da criatividade no design da facilitação de grupos e na dinâmica de grupos

Entre o corpo, o cérebro e o grupo: uma perspectiva interdisciplinar

Sou fisioterapeuta de formação, psicanalista por curiosidade e escolha, e facilitador de grupos por amor. Essa combinação construiu em mim uma maneira particular de olhar para o conceito e para a prática da criatividade, não como um dom, mas como um fenômeno construído pelo diálogo profundo e intenso entre corpo motor e sensorial, os pensamentos e as emoções, a atenção e os contextos de vida, nesse caso, os contextos da minha vida.

Com a prática da fisioterapia, eu aprendi que todo movimento do corpo humano nasce de uma necessidade biológica de sobrevivência (como a respiração) ou de um pensamento elaborado (como os movimentos intencionais dos braços, pernas e demais partes do corpo). Já com a Psicanálise, eu compreendi que muitos comportamentos são criados a partir de movimentos do inconsciente, e com a facilitação de grupos fui descobrindo ao longo do tempo, que os grupos de trabalho funcionam como organismos vivos e autorregulados com ritmos, tensões e pausas próprias.

Essa perspectiva me leva a compreender a criatividade não como algo que acontece “dentro da cabeça”, mas como uma função sistêmica, onde corpo, cérebro (pensamentos) e relações se influenciam mutuamente. Criar, afinal, é um ato de coordenação: de músculos, de conexões nervosas (sinapses), de terminações nervosas de emoções e de pessoas.

É sob essa lente, em que a biologia encontra a psique e a coletividade, que eu pensei e escrevi esse artigo, buscando explorar o papel da criatividade no design e na prática da facilitação de grupos e da dinâmica de grupos.

Mais do que um comportamento pontual ou uma atitude reservada aos momentos em que precisamos gerar ideias, a criatividade é tratada aqui como uma força organizadora do pensamento e da convivência humana, uma maneira de estar no mundo, aprender com ele e transformá-lo, em conjunto e de maneira colaborativa.

Por dentro do cérebro criativo: o que a neurociência da criatividade ensina sobre a facilitação de grupos

Nos últimos anos, a neurociência da criatividade tem mostrado por meio de estudos que criar não é um dom raro de algumas  pessoas, tampouco um lampejo de genialidade reservado a artistas ou inventores. Criar é, antes de tudo, um modo de o cérebro viver, uma forma de organizar a complexidade da experiência humana.

 

A criatividade não acontece por acaso, ela é o resultado de um alinhamento fino e sutil entre imaginação, emoção, atenção e corpo. O cérebro alterna, como quem respira, entre momentos de abertura e de foco, entre o caos fértil da livre associação e a ordem que transforma ideias em forma, gesto ou palavras.

 

Curiosamente, as mesmas redes neurais que sustentam esse processo, aquelas que geram, avaliam e integram possibilidades, também se ativam quando grupos aprendem juntos, resolvem problemas ou constroem significados coletivos.

Criar e colaborar, no fundo, são expressões diferentes do mesmo movimento vital: o de conectar o que está separado.

 

Essa constatação aproxima dois mundos que raramente conversam de maneira direta: o da ciência do cérebro e o da facilitação de grupos. Se a neurociência mostra como o cérebro funciona quando exerce a criatividade, a facilitação mostra como os grupos pensam e agem coletivamente. E o interessante de tudo isso é que nos dois casos, há um mesmo princípio em jogo: a capacidade de regular tensões entre liberdade e controle, entre divergência e convergência, entre o eu e o nós.

 

Na prática, facilitar um grupo é atuar como o sistema nervoso central social: um mecanismo que ajuda as conexões a se formarem e funcionarem, as ideias a circularem e os silêncios a se tornarem férteis.

 

A neurociência da criatividade oferece uma lente poderosa para compreender e aprimorar esse papel. Ela mostra que, assim como o cérebro alterna entre diferentes redes neurais para gerar e avaliar pensamentos que posteriormente se transformarão em ideias ou caminhos, os grupos também precisam de ritmos, pausas e mediações para que o novo emerja de forma natural.

 

Assim, esse artigo nasce desse ponto de encontro entre corpo, mente (neurociência) e grupo. Ele propõe que a criatividade, longe de ser apenas a capacidade de ter boas ideias, é um modo de funcionamento coletivo, uma forma de inteligência distribuída que se expressa quando as pessoas aprendem a pensar juntas.

 

A partir das descobertas recentes da neurociência da criatividade, especialmente as que envolvem as redes: Default Mode Network (DMN), Executive Control Network (ECN) e Salience Network (SN) e da experiência prática em facilitação de grupos, vou explorar como o design de processos criativos pode se tornar mais consciente, fluido e neurocompatível.

 

Mais do que um artigo teórico, este é um convite para olhar a facilitação sob uma nova perspectiva: a de um cérebro coletivo em movimento, capaz de transformar conexões em criação.

A criatividade como fenômeno neurocognitivo

As últimas duas décadas de pesquisa relacionadas com a neurociência da criatividade transformaram a forma como compreendemos o ato de criar. O que antes era visto como inspiração súbita ou talento inato passou a ser entendido como uma função integrada de redes neurais no cérebro, ou seja, como um processo dinâmico em que o cérebro alterna entre liberdade e controle, imaginação e foco, emoção e estrutura.

 

A criatividade é, portanto, menos um “dom” e mais um modo de funcionamento do sistema nervoso (das diferentes áreas do cérebro e corpo), que pode ser estimulado, treinado e melhorado. Ela emerge do diálogo constante entre três grandes redes cerebrais, descritas por Roger Beaty & Andreas Benedek (2016) e Jung & Fink (2019) e aprofundadas em diversos outros estudos que li e que vou ao final deste artigo deixar nas minhas referências. Essa complexa rede neural é conhecida como: Network Neuroscience of Creativity.

Default Mode Network (DMN), a rede da imaginação, o espaço do devaneio e das possibilidades

Quando o cérebro relaxa, algo curioso acontece: ele começa a conectar lembranças, imagens e ideias aparentemente distantes e sem conexões.

 

A região no cérebro na qual isso acontece é também chamada de “zona de devaneio”. É nela que surgem os lampejos criativos ou aquela combinação inesperada que dá origem a uma nova ideia, uma metáfora ou um insight. É a rede da imaginação, também chamada de Default Mode Network (DMN).

 

No trabalho com grupos, essa mesma dinâmica aparece quando as pessoas se sentem seguras o bastante para pensar livremente, sem medo de julgamentos ou medo de errar. É nesse momento que a imaginação coletiva se expande e o novo começa a emergir.

 

A pesquisa de Roger Beaty e Andreas Benedek (2016) demonstrou que essa rede é mais ativa justamente quando estamos deixando a mente relaxar, em repouso, ou caminhando, ou em momentos de reflexões mais abertas e amplas sobre temáticas da vida.

 

Principais estruturas da DMN no cérebro:

 

  • Córtex pré-frontal medial: integra emoções e memória autobiográfica; origem de ideias espontâneas.

  • Córtex parietal posterior / precuneus: autorreferência, consciência e imaginação visual.

  • Hipocampo: recombinação de lembranças, base da criatividade associativa.

  • Córtex temporal medial: armazena memórias semânticas e promove associações remotas.

 

Fontes: Beaty et al. (2016, 2019), Fink & Benedek (2019), Dietrich (2004), Jung & Vartanian (2018).

Executive Control Network (ECN), a rede do foco, onde as ideias se tornam decisão e novos caminhos

Se a imaginação cria livremente, o foco organiza. A rede executiva, ou Executive Control Network (ECN), entra em ação quando é hora de avaliar, escolher ou planejar. É ela que ajuda a transformar uma ideia em algo possível.

 

Nos grupos, essa transição acontece quando o professor facilitador conduz as pessoas da exploração para a escolha, do sonho para a realidade, da quantidade para a qualidade. É o momento em que a energia criativa ganha direção e forma.

 

Beaty, Benedek e Jung (2018–2019) mostraram que a rede ECN conversa com a da imaginação o tempo todo, o cérebro realmente alterna entre liberdade e controle em ciclos muito rápidos, criando um equilíbrio dinâmico entre devaneio e disciplina.

 

Principais estruturas da ECN no cérebro:

 

  • Córtex pré-frontal dorsolateral: controle executivo, atenção seletiva e inibição de distrações.

  • Córtex parietal posterior: integração sensório-espacial e coordenação entre percepção e ação.

  • Córtex pré-frontal ventrolateral: flexibilidade cognitiva e reavaliação emocional.

  • Córtex orbitofrontal: julgamento de valor, decisão e feedback social.

 

Fontes: Beaty et al. (2019), Dietrich (2004, 2019), Jung & Vartanian (2018), Zhou (2018).

Salience Network (SN), a rede das transições, o pulso que mantém o ritmo criativo

Entre o devaneio e o foco existe uma espécie de “ponte neural” que regula o ritmo entre as duas fases (DMN e ECN). Essa ponte é a rede da saliência, ou Salience Network (SN), e sua função é decidir o que merece atenção e quando é hora de mudar de estado mental, de uma fase para a outra.

 

Durante um processo de facilitação, o facilitador assume um papel muito parecido com a rede SN: ele sente o momento do grupo, percebe quando o entusiasmo se dispersa, quando é preciso fazer uma pausa ou quando é hora de acelerar. Essa capacidade de ajustar o tempo e o tom é o que mantém o grupo vivo, conectado e produtivo.

 

A ideia dessa rede mediadora foi descrita de forma pioneira por Beaty e Jung (2016) e consolidada nas revisões teóricas de Benedek e Fink (2019).

 

Principais estruturas da SN no cérebro:

 

  • Ínsula anterior: integra sensações corporais, emoção e consciência subjetiva.

  • Córtex cingulado anterior (ACC): monitora conflito, erro e necessidade de mudança de foco.

  • Amígdala: sinaliza relevância emocional e modula respostas criativas.

  • Estriado ventral: regula motivação e recompensa (ligado à dopamina).

 

Fontes: Beaty et al. (2016), Jung & Vartanian (2018), Ehrlich (2015), Sawyer (2011).

O cérebro cria da mesma maneira que trabalha um grupo quando facilitado

Quando olhamos o funcionamento dessas três redes neurais juntas: a da imaginação (DMN), do foco (ECN) e a da transição (SN), vemos um sistema que se autorregula em ciclos curtos: gerar, avaliar, ajustar e começar de novo. É quase uma coreografia interna, semelhante ao que acontece em um trabalho em grupo bem conduzido. Essa alternância constante é o que dá fluidez aos processos de aprendizagem e inovação.


Grupos que aprendem a se mover entre momentos de divergência (abrir possibilidades) e convergência (tomar decisões) estão, de certa forma, reproduzindo o mesmo padrão dinâmico de um cérebro quando trabalha para criar. Essa compreensão surgiu com o modelo de cooperação dinâmica proposto por Beaty e colegas (2019), que mostrou como o cérebro “dança” entre redes de imaginação e controle, mediado por atenção e emoção.

Quando o corpo entra na dança

Criar é, antes de tudo, um gesto corporal. É o corpo que antecipa o pensamento, que ensaia caminhos antes mesmo de sabermos o que virá. A neurociência mostra que, durante processos criativos, áreas ligadas à percepção e ao movimento, como o córtex motor e o cerebelo, se ativam tanto quanto as regiões associadas ao raciocínio abstrato.

 

Isso significa que a criatividade não mora apenas nas ideias, mas também na forma como respiramos, olhamos, caminhamos, tocamos e sentimos. Assim, práticas corporais, como dança, teatro, improviso ou mesmo pequenos gestos conscientes durante o trabalho em grupo, têm o poder de destravar o pensamento. Isso tudo conecta o corpo à emoção permitindo que o cérebro entre em estado de flexibilidade e curiosidade. Essa integração entre movimento e mente cria as condições ideais para que o novo apareça, algo que a facilitação pode provocar quando desenha experiências que envolvem ritmo, espaço, som e presença.

Em 2015, um grupo de artistas, cientistas e educadores se reuniu em Salzburg, uma cidade na Áustria, localizada no centro-oeste do país, próxima à fronteira com a Alemanha, para conversar sobre o que, afinal, faz o cérebro humano criar. O encontro, que deu origem ao relatório The Neuroscience of Art, defendeu uma ideia simples e poderosa: a criatividade nasce do diálogo entre corpo, emoção e pensamento, e não de um talento misterioso e nato, ou mesmo, um dom divino dado a apenas algumas pessoas abençoadas e escolhidas a dedo por Deus. Ali, os neurocientistas presentes mostraram que o improviso musical desliga o controle racional e aciona áreas no cérebro ligadas ao prazer e à expressão criativa, artistas apontaram como os gestos corporais, o som e o silêncio acionam a criatividade e educadores lembraram que experiências artísticas ensinam o cérebro a aprender porque envolvem corpo, emoção e pensamento em um mesmo gesto.

O report fala do cérebro como uma “comunidade criativa”, redes neurais conversando entre si como pessoas num grupo de trabalho, e termina propondo que escolas e instituições criem os “Imagination Hubs”, ou os braços de imaginação, que devem ser espaços onde a ciência e a sensibilidade humana se encontrem de fato. Mais do que um relatório, é um convite para repensar a criatividade como algo vivo, coletivo e profundamente humano.

Do cérebro ao grupo: a criatividade como processo coletivo

Se o cérebro cria por meio da cooperação entre diferentes redes neurais, umas gerando ideias, outras avaliando, outras decidindo quando mudar de foco, os grupos de trabalho também criam assim. Um grupo criativo é, em certo sentido, um “cérebro ampliado”: um sistema em que cada pessoa desempenha o papel de uma rede, contribuindo com percepções, afetos e saberes diferentes que se integram para entregar algo maior, mais complexo e preferencialmente, mais criativo, diferente e inovador.

 

O papel do professor facilitador é o de regular esse fluxo coletivo de informações e elementos, do mesmo modo que o córtex pré-frontal* regula o cérebro. Ele ajuda o grupo a alternar entre momentos de expansão (divergência) e momentos de foco (convergência), sem interromper o movimento criativo. Essa alternância é o coração da facilitação e espelha o que Beaty, Benedek, Jung e Fink chamam de cooperação dinâmica entre as redes DMN (imaginação), ECN (avaliação) e SN (transição).

 

Na prática, isso significa que uma boa facilitação não se limita a “guiar atividades”, mas a criar um ritmo neuropsicológico de aprendizagem. O grupo precisa de pausas, variações de estímulo, espaços de reflexão e de expressão, todos os elementos que permitem ao cérebro coletivo reorganizar-se e produzir sentido.

 

Mais do que estimular novas ideias, a facilitação de grupos trabalha com a qualidade das conexões: entre pessoas, entre pensamentos e entre emoções. Criar, nesse contexto, é uma forma de sincronizar ritmos humanos. Quando essa sincronia acontece, ou seja, quando o grupo “entra em estado de flow”, há um estado semelhante ao que a neurociência descreve como coativação entre redes cerebrais divergentes e convergentes.

 

Assim como o cérebro criativo precisa aprender a coordenar suas próprias tensões internas, os grupos criativos precisam aprender a conviver com o conflito produtivo, o espaço onde ideias diferentes se friccionam e se transformam. O professor facilitador dever atuar nesse ponto de tensão, como o sistema saliente (do cérebro) da equipe: reconhecer o momento de expandir e o momento de recolher, de escutar e de decidir.

 

*O córtex pré-frontal é a região do cérebro localizada logo atrás da testa, responsável por funções como planejamento, atenção, tomada de decisão e regulação emocional. É considerado o “centro executivo” do cérebro, o que ajuda a organizar, avaliar e direcionar pensamentos e comportamentos.

Essas práticas reconhecem que o pensamento criativo não nasce apenas da estimulação constante, mas também do espaço para integração, onde corpo, emoção e atenção se reequilibram para que novas conexões possam emergir.

Os estudos sobre neurociência da criatividade mostram que o cérebro não trabalha criando o tempo todo. Ao contrário, ele funciona em ciclos: alterna entre fases de ativação e repouso, de divergência e convergência, de foco e dispersão. Essa oscilação é essencial e é o que permite ao cérebro combinar liberdade e controle, imaginação e julgamento, intuição e lógica. Em outras palavras, a criatividade é menos um estado permanente e mais um ritmo neural de alternância (Beaty et al., 2019; Dietrich, 2004).

 

Facilitar grupos de trabalho buscando que, em diferentes momentos do processo, as pessoas possam produzir pensamentos criativos é, portanto, criar condições para que esse ritmo aconteça coletivamente. Um grupo que alterna entre ação e pausa, fala e escuta, expansão e foco, reproduz no plano social o mesmo padrão de autorregulação que o cérebro usa para gerar elementos novos.

 

Inspiradas nas pesquisas de Dietrich (2004, 2019), Beaty & Benedek (2016–2019), Fink (2019) e nas evidências do Relatório Salzburg (Ehrlich, 2015), as praticas a seguir são exemplos de intervenções neurocompatíveis, isto é, práticas que ajudam a mobilizar as redes cerebrais da criatividade no contexto do trabalho em grupo, dentro da sala de aula ou em processos de aprendizagem colaborativa. 

Ativar a Rede Padrão (DMN): imaginar, divagar, associar

A Rede em Modo Padrão (Default Mode Network, DMN) é um conjunto de regiões cerebrais que se ativam quando o cérebro está em repouso, devaneando, lembrando do passado ou imaginando o futuro. Ela é associada à imaginação, memória autobiográfica, associação livre de ideias e pensamentos espontâneos. Entre suas principais áreas estão o córtex pré-frontal medial, o precuneus, o córtex parietal posterior e o hipocampo, responsáveis por conectar experiências, emoções e lembranças para gerar novas combinações mentais (Beaty et al., 2016; Fink, 2019).

 

No contexto da facilitação de grupos, ativar a DMN significa criar espaços para o pensamento lento e associativo, momentos em que o grupo pode respirar, imaginar e deixar que as ideias amadureçam sem pressão imediata por resultados.

 

São nesses intervalos de menos foco que surgem conexões inesperadas, intuições e novas possibilidades.

 

Práticas facilitadoras para ativar a DMN:

 

  • Silêncio intencional: breves pausas de reflexão antes de um brainstorming ou decisão importante.

  • Escrita livre ou desenho intuitivo: permitir que os alunos registrem pensamentos sem filtro ou julgamentos, por meio da escrita ou de desenhos.

  • Caminhadas ou microintervalos ativos: a mudança de ambiente estimula devaneio produtivo e reorganiza a atenção.

 

Essas pausas, longe de serem ociosas, representam o mesmo princípio fisiológico da respiração: o cérebro também precisa inspirar e expirar, alternar entre foco e dispersão, para criar de forma sustentável.

 

Assim, estimular a DMN é desenhar pausas que favorecem o insight coletivo, respeitando o ritmo natural da mente e do grupo.

Engajar a Rede Executiva (ECN): focar, planejar, escolher

Se a Rede em Modo Padrão (DMN) é o espaço da imaginação livre, a Rede Executiva (Executive Control Network, ECN) é o território cerebral do foco e da ação consciente.

 

Ela entra em cena quando o cérebro precisa avaliar, decidir, planejar ou direcionar a atenção para uma tarefa específica. É essa rede que nos permite manter uma ideia sob controle sem deixá-la escapar e transformar inspiração em escolha deliberada.

 

A ECN é formada principalmente pelo córtex pré-frontal dorsolateral e pelo córtex parietal posterior, regiões associadas ao planejamento, raciocínio e controle inibitório, ou seja, à capacidade de dizer não a distrações e priorizar o que é relevante.


É aqui que o pensamento criativo ganha forma e direção, filtrando o que é apenas curioso e interessante e selecionando o que é realmente útil (Beaty et al., 2019; Dietrich, 2004).

 

Nos grupos, a ECN se manifesta nos momentos de convergência e tomada de decisão, quando o coletivo precisa sair do campo das ideias e começar a organizar o que será feito.


O papel do professor facilitador, nesse ponto, é ajudar o grupo a transformar intuição em ação, sem bloquear o fluxo criativo das pessoas, equilibrando liberdade e estrutura concreta.

 

Práticas facilitadoras para engajar a ECN incluem:

 

  • Sínteses visuais: usar quadros, mapas mentais ou painéis com post-its coloridos para organizar ideias e tornar visível o pensamento coletivo.

  • Critérios claros de decisão: definir em conjunto quais parâmetros orientam a escolha (tempo, impacto, viabilidade, relevância). Priorizar caminhos.

  • Momentos de priorização silenciosa: cada aluno participante escolhe individualmente as ideias ou caminhos mais potentes antes da discussão aberta na sala de aula, reduzindo o viés e a sobreposição de falas.

  • Sequência divergência / convergência: sempre permitir um tempo de geração antes do filtro, respeitando o caminho neural da criatividade.

 

Quando a ECN atua em harmonia com DMN, o grupo experimenta o equilíbrio entre sonhar e decidir.

 

O desafio da facilitação está em não ativar a ECN cedo demais, pois o excesso de controle pode suprimir a fluidez criativa. A sincronia entre as duas redes, imaginação e foco, é o que justamente transforma ideias em realizações coletivas.

Mobilizar a Rede de Saliência (SN): transitar, perceber, decidir

Entre a imaginação livre da Rede Padrão (DMN) e o foco dirigido da Rede Executiva (ECN), existe uma espécie de maestro invisível: a Rede de Saliência (Salience Network, SN). A rede SN atua como o sistema de alerta e transição do cérebro, responsável por detectar o que é relevante no ambiente interno e externo e decidir quando mudar de estado mental, ou seja, decidir quando é hora de sonhar e quando é hora de agir (Beaty et al., 2016; Jung & Vartanian, 2018).

 

A rede SN é formada principalmente pela ínsula anterior e pelo córtex cingulado anterior, estruturas que conectam percepção corporal, emoção e atenção. Ela é a ponte entre sentir e pensar e o radar que percebe quando algo “faz sentido” e ativa a mudança de rede. É por isso que, neurobiologicamente, a intuição não é um mistério, mas uma percepção saliente: o cérebro detecta padrões de relevância antes que a consciência os formule.

 

No contexto da facilitação de grupos, a SN é o espelho do papel do facilitador. Assim como o cérebro precisa da rede SN para decidir quando alternar entre foco e devaneio, o grupo de trabalho precisa de alguém (ou de um sistema coletivo) capaz de ler o clima, sentir o ritmo e ajustar o tempo.

 

A facilitação de grupos, nesse sentido, é uma forma de “atenção distribuída”, precisa por meio do facilitador perceber o que está vivo na experiência do grupo e ajustar o processo para que o pensamento criativo continue fluindo.

 

Práticas facilitadoras para mobilizar a SN:

 

  • Ritmo e alternância: variar o tempo das atividades (rápido/lento, ativo/reflexivo) para criar contraste e manter a atenção viva.

  • Leitura corporal: observar gestos, respiração, expressões, o corpo mostra quando o grupo está saturado ou energizado.

  • Check-ins emocionais curtos: antes de decisões importantes, perguntar “o que está mais presente agora?” ajuda o grupo a reconhecer sua própria saliência.

  • Transições conscientes: pequenas pausas ou rituais entre uma fase e outra (respiração, música, silêncio, alongamento) ajudam o cérebro a “trocar de rede”.

 

Quando o professor facilitador aprende a perceber o momento certo de intervir ou de silenciar, ele atua como a ínsula* do grupo  a estrutura que mantém viva a sensibilidade coletiva.

 

Essa regulação fina é o que transforma o processo criativo em uma jornada fluida, em vez de um esforço fragmentado.

 

*A ínsula anterior é uma pequena região do cérebro, localizada nas profundezas do córtex, responsável por integrar sensações corporais, emoções e consciência subjetiva. Essa região é considerada a “central de percepção interna”, monitorando batimentos cardíacos, respiração e estados emocionais sutis, permitindo que o cérebro perceba o que o corpo sente antes mesmo de formar um pensamento sobre isso.

Estimular a Rede Motora e Sensorial: aprender com o corpo

Como já apresentei acima, a criatividade é um fenômeno distribuído por várias áreas do cérebro, assim, o corpo é o seu principal laboratório.

 

A Rede Motora e Sensorial (RMS) participa ativamente do processo criativo, mesmo quando não há movimento aparente no corpo. Ela é ativada sempre quando fazemos alguma tarefa com o corpo, mas também é ativada quando imaginamos fazer: pensar em levantar o braço, tocar um instrumento ou caminhar aciona os mesmos circuitos motores e somatossensoriais* envolvidos na ação real de mesma natureza.

 

É por isso que criar é também um ato corporal e não apenas cerebral ou mental. A pesquisa em neurociência da dança e do improviso de  Hackney, Burzynska & Ting, 2024 sugere que o movimento corporal amplia a conectividade entre redes sensoriais, motoras e frontoparietais, fortalecendo a atenção, a memória e a empatia. Esses achados confirmam algo que a facilitação já sabia empiricamente: o corpo aprende antes da mente.

 

O movimento prepara o cérebro para o foco, e o gesto pode liberar o pensamento bloqueado.

Principais estruturas da RMS no cérebro:

 

  • Córtex motor primário e suplementar: planeja e executa movimento, inclusive imaginado.

  • Córtex somatossensorial: percepção tátil, temperatura e posição corporal.

  • Cerebelo: coordenação, ritmo e sincronia corporal durante criação (ex.: dança, improviso).

  • Gânglios da base: automatização de padrões criativos e modulação dopaminérgica.

 

Fontes: Hackney, Burzynska & Ting (2024), Kihanya (2023), Ehrlich (2015), Dietrich (2004).

Durante a facilitação de grupos, incorporar práticas corporais simples, como deslocar-se pelo espaço, mudar de postura ou criar um gesto para cada ideia certamente ajuda e muito os alunos a acessar diferentes vias de percepção sensorial do corpo.

 

O cérebro interpreta o movimento como uma forma de pensamento, quando o corpo se move, as ideias ganham forma, ritmo e até um certo “formato” para percepção.

 

As evidências sugerem que, ao ativar o sistema motor, o cérebro libera dopamina e fortalece a comunicação entre as redes Default Mode (imaginação) e Executiva (foco), favorecendo insight, prazer e engajamento (Beaty et al., 2019).

 

Movimento e emoção formam, assim, uma parceria criativa: o gesto físico sustenta o gesto mental.

 

Práticas facilitadoras para mobilizar a RMS:

 

  • Mapa corporal da ideia: peça para que os grupos representem conceitos ou emoções com gestos, posturas ou movimentos livres com o corpo.

  • Caminhar e pensar: pequenas caminhadas ou deslocamentos espaciais durante a fala ajudam a destravar ideias e clarear o raciocínio.

  • Ritmos corporais: bater palmas, estalar os dedos ou usar o corpo como instrumento desperta atenção e sincronia.

  • Modelagem com as mãos: trabalhar com massinha modeladora, papel, argila ou outros materiais físicos ativa a integração sensório-motora e reduz a autocrítica.

  • Posturas de escuta: alternar entre posições de fala e de escuta regula foco e presença no grupo.

 

O professor facilitador que entende o corpo como extensão da mente cria contextos de aprendizado mais vivos e menos abstratos. Nessas situações, a neuroplasticidade deixa de ser um conceito e se torna uma experiência: o grupo sente a mudança antes de compreendê-la. E talvez seja essa a essência da criatividade, uma conversa contínua entre corpo, emoção e ideia, em movimento.

 

*Circuitos motores e somatossensoriais são redes do cérebro responsáveis por planejar e executar movimentos (circuitos motores) e por perceber sensações corporais como toque, temperatura, posição e pressão (circuitos somatossensoriais).
Elas trabalham em conjunto, o corpo sente enquanto se move, e o movimento muda o modo como o cérebro percebe e aprende.

Sincronizando as redes cerebrais: integrar corpo, emoção e cognição no grupo

Quando o cérebro cria, ele não faz isso por partes, ou seja, de maneira sequencial isolada. Embora didaticamente possamos estudar as diferentes redes: DMN (imaginação), ECN (executiva e foco) e SN (atenção emocional) e a RMS (ação), o que realmente dá origem à criatividade é a sincronia entre todas elas em tempo real.

 

Essa sincronia não é rígida, fixa, ao contrário, ela pulsa, oscila e se ajusta conforme o contexto, o estado emocional e as interações sociais.

 

Nas pesquisas de Beaty, Benedek, Fink e Jung (2016–2019), essa integração dinâmica aparece como o “coração” do processo criativo. O cérebro criativo é aquele que sabe mudar de rede no momento certo, alternando entre foco e abertura, entre pensar e sentir, entre agir e observar. Em grupos, acontece o mesmo: quanto mais as pessoas conseguem se ajustar umas às outras em ritmo, atenção e emoção, mais o grupo se torna criativo e coeso. Podemos até arriscar dizer que trata-se a “versão social da coerência neural”.

 

Na prática, essa coerência surge quando o professor facilitador cria ambientes em que o grupo respira junto, literalmente e metaforicamente. Silêncios compartilhados, pausas conscientes, variações de ritmo e espaços de escuta genuína são pequenas práticas que regulam o sistema nervoso coletivo.

 

Nesses momentos, o grupo entra em um estado de “sincronia funcional”: as emoções se alinham, os corpos se harmonizam e o pensamento flui com naturalidade.

 

O Relatório Salzburg (Ehrlich, 2015) descreve isso de modo poético: “a arte e a ciência se encontram quando o ritmo interno das pessoas ressoa em comum”.

 

Essa é, em essência, o papel da facilitação de grupos, criar condições para que essa ressonância aconteça. Assim, não se trata de controlar o grupo, mas de ritmar o grupo, tal como um maestro rege uma orquestra viva, onde cada instrumento mantém sua singularidade dentro do conjunto.

 

Práticas facilitadoras para promover sincronia criativa:

 

  • Respiração coletiva guiada: alguns minutos de respiração ritmada antes de começar a atividade ajudam a estabilizar o sistema nervoso e criar presença.

  • Pausa de ressonância: um momento de silêncio após trocas intensas, para que o grupo processe o que foi dito, o cérebro precisa de espaço para integrar tudo.

  • Ritmo compartilhado: utilizar sons, batidas leves ou gestos sincronizados para marcar transições entre etapas da atividade.

  • Observação em espelho entre pessoas: pares se observam em silêncio e imitam movimentos um do outro prática inspirada nos estudos sobre neurônios-espelho, ligados à empatia e à coesão social.

  • Reflexão conjunta: encerrar atividades com perguntas abertas sobre o que o grupo sentiu no corpo, pensou e percebeu emocionalmente.

 

Quando corpo, emoção e cognição se integram, surge algo que vai além da soma das partes: um estado de inteligência coletiva, neurobiologicamente coerente e emocionalmente sustentável. Esse é o ponto máximo da criatividade em grupo, ou seja, quando o pensamento ganha corpo e o corpo ganha sentido.

Como a ciência contemporânea apoia o papel da criatividade na facilitação de grupos

Arne Dietrich (2004, 2019): os quatro modos da criatividade. A criatividade alterna entre deliberada e espontânea, cognitiva e emocionalNa prática isso significa desenhar encontros que equilibrem momentos de estrutura (planejamento, análise) e momentos de improviso (jogos, metáforas, experiências). Facilitar é saber em que “modo” o grupo está e mudar o ritmo quando necessário.

 

Roger Beaty et al. (2016–2019): o cérebro trabalha em rede, não em partes. A criatividade nasce da cooperação entre três redes cerebrais: Default Mode (imaginação), Executiva (foco) e Saliente (transição). Na prática: desenhar processos com etapas de divergência, pausa e convergência, como um diamante que abre, tensiona e fecha. O bom professor facilitador atua como a Rede Saliente do grupo, percebendo o momento de mudar o modo de pensar coletivo.

 

Andreas Fink & Mathias Benedek (2019): criar é sincronizar razão e emoção. As ondas cerebrais entram em coerência quando o pensamento e a emoção convergem. Na prática: usar o corpo e o silêncio como aliados, música, respiração ou pausas conscientes ajudam a alinhar emoção e raciocínio. A pausa é parte ativa do processo criativo.

 

Rex Jung & Oshin Vartanian (2018): a criatividade como conectividade global. O cérebro criativo tem alta eficiência de rede, menos esforço, mais integração. Na prática: quanto mais os membros de um grupo se conectam entre si (emoção, ritmo, confiança), mais fluida a criatividade coletiva. Grupos criativos não são rápidos, são coerentes.

 

Ehrlich e o Relatório Salzburg (2015): o cérebro é uma comunidade criativa. Artistas e cientistas concluíram que o cérebro cria como um grupo: com trocas, pausas, tensões e afeto. Na prática: o grupo é um organismo vivo e a facilitação de grupos é o ambiente que regula sua saúde emocional. A arte de facilitar é, na verdade, uma neuroecologia social.

 

Sawyer (2011): a improvisação é o modelo perfeito da criação. Durante a improvisação, o cérebro reduz o controle e amplia a fluidez de ideias. Na prática: propor momentos de improviso (histórias, sons, movimentos) ensina o grupo a confiar no processo.  O improviso é treino de confiança, individual e coletiva.

 

Zhou (2018): a criatividade pode ser ensinada. O cérebro é plástico: atenção e memória podem ser treinadas para melhorar a fluência criativa. Na prática: criar dinâmicas que desafiem o grupo a focar e se distrair de forma controlada (ex: alternar concentração e dispersão). Criatividade é treino, não talento.

 

Kihanya (2023): a música como metáfora da sincronia criativa. A improvisação musical ativa emoção, memória e foco ao mesmo tempo. Na prática: usar ritmo, som e pausa como recursos de facilitação, um grupo que respira junto pensa junto. Quando o grupo “entra no mesmo compasso”, o cérebro entra em flow.

 

Lebuda, Zabelina & Karwowski (2016): Mindfulness e criatividade andam de mãos dadas. A atenção plena aumenta a flexibilidade cognitiva e emocional, melhorando o pensamento divergente. Na prática: pequenas práticas de presença (3 respirações, sentir o corpo) antes de dinâmicas geram foco e abertura. Atenção é a ponte entre calma e criação.

 

Beaty & Benedek (PNAS, 2018): a criatividade é previsível. A força das conexões entre redes cerebrais permite prever a capacidade criativa de uma pessoa. Na prática: ambientes que alternam imaginação e controle fortalecem essa rede e tornam grupos mais criativos com o tempo. Criar é sincronizar antagonismos: liberdade e foco, caos e clareza.

E agora, o que fazer com tudo isso?

Saber como o cérebro cria não é o mesmo que ser mais criativo, mas é um começo poderoso. Entender as redes de neurônios, os ritmos e as pausas que sustentam a imaginação nos dá uma nova lente para olhar o cotidiano do trabalho em grupo.

 

A ciência mostra que a criatividade não é um lampejo genial, um dom ou um presente divino, mas sim uma “dança” entre foco e liberdade, corpo e mente, controle e entrega.

 

Como professores facilitadores, educadores ou líderes, nosso papel não é “ensinar alguém a ser criativo”, e sim criar contextos onde a criatividade possa fluir, respirar e se perpetuar realmente. Ambientes que acolhem o erro, a dúvida, o silêncio e o riso, que permitem o desvio do caminho original, a pausa e a experimentação, são saudáveis para a criatividade.

Ambientes que tratam a atenção como um músculo e a emoção como parte da inteligência, não como obstáculo.

 

No fundo, facilitar grupos é quase como reger um cérebro coletivo. Cada pessoa traz um ritmo, uma história, um padrão de conexão. E quando essas diferenças entram em ressonância, surge algo que nenhuma mente sozinha poderia produzir: uma ideia viva, compartilhada e com propósito.

 

Portanto, o convite é simples:

 

  • Desenhe experiências que despertem corpo, emoção e mente;
  • Crie pausas que permitam o inesperado;
  • Dê ritmo ao grupo como se estivesse afinando um instrumento vivo.

 

Porque a facilitação não é apenas uma metodologia. É uma arte que, assim como o próprio cérebro, aprende o tempo todo a criar e a recriar novas formas de pensar, de sentir e estar juntos.

 

“Professor, vem comigo que você passa de ano! E passa sabendo que criatividade não é dom e nem talento, é treino e presença. Que o cérebro aprende quando o grupo respira junto, quando a emoção encontra a ideia e o corpo entende o que ensina.”

 

Rafa Davini

Referências de suporte

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Rafael Davini

Mestre pela UNICAMP. Professor facilitador de grupos com mais de 10 anos de experiência atuando em universidades como UNICAMP, PUCCAMP e USF. Consultor em empresas como EMS, AMBEV, Grupo O Boticário, Mercedes Benz Caminhões, Danone, entre outras.
Especialista em:
• Design da Facilitação de Grupos
• Design Thinking
• Inovação Exponencial (Singularity University - EUA)
• Transformação Digital (Silicon Valley Innovation Center -USA)
• Certificado internacional em metodologias ágeis (SCRUM.org)